sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Depoimento brega

Lembro dos tempos em que eu assistia Top TVZ, no Multishow. Longínquos dez anos atrás, quando eu era um pivete de 13 anos. Na época, o Top era Green Day, com o Nimrod recém lançado, Pearl Jam com Do The Evolution, Aerosmith com Pink, e várias outras músicas que marcaram o final da minha infância e construíram meu gosto musical, que carrego até hoje. O tempo passou, rápido como uma música dos Ramones, e cruel como ter que ouvir uma música do Calypso inteira. E as coisas mudaram.

Depois de um bom tempo, resolvi ver a programação do mesmo canal, como anda o Top hoje. Com salvas excessões, definitivamente as coisas mudaram. Ainda existe amor pelo trabalho? Ainda existem artistas que tocam músicas que realmente compõem melodias e escrevem letras sobre temas que lhes interessam? Uma chuva de artistas que nem sabem cantar ao vivo estão pipocando no mercado fonográfico todos os dias já fazem alguns anos. Tudo músicas com letras compradas. Vai lá, canta, grava um clipe caro e bom. Vai pra casa, fim. Ora, mas essa é a essência do "pop"? Bom. Michael Jackson era mestre em compor músicas, dançar e cantar ao vivo enquanto fazia um passo inexplicável. Mas vamos combinar: Algumas músicas pops de hoje são legaizinhas, tem batida e som legal. Precisamos admitir isso.

Mas peraí, cadê o tal do pop? Vontade de voltar no tempo e colocar cianeto na água daquela Eve. Mas isso é de menos, a desgraça maior sempre está por vir. Sinto falta dela quando vejo as novas modinhas brasileiras. Até uns meses atrás, quem em sã consciência com seus deze e alguns anos (ou até nos vinte e poucos) iria ouvir uma choradeira digna de sertanejo? Parece hipocrisia: Coloque a música mais chorada do Amado Batista pra um adolescente frustrado ouvir. "Pô que porcaria". Agora coloca uma bandinha emo dor-de-corno-loser pra ouvir. "Pô, sonzeira! O vocalista bixinha sabe escrever tri bem o que sente, pô, falou com o coração, coitadinho. Como sofreu na mão da mulherada. Parece eu!" Você pode achar até a melodia boa. Mas no momento, estamos falando das letras, ok?

Pois bem! É pra falar da melodia? Aí a situação PIORA, amigo leitor. Realmente, ela se complica. Chegamos em 2007 e a situação inverte. Você já deve ter visto um caso desses:
"Ah, eu odeio essas músicas metidas a emo, é uma choradeira patética, os caras se humilham e assinaram atestado de fracassado. Sai fora!" Aposto que já ouviu algo assim. Aí sabe o que acontece? Essa mesma pessoa hoje ouve... SERTANEJO CHORADO! HA HA HA. Onde você vai, seja no subúrbio, no centro ou no condomínio fechado. Todo mundo ouvindo duplas como Vítor e Leo e outras, algumas até com nomes bizarros, longe de nome de artista como "Hugo Pena" ou do clone do Faustão. Nos meus tempos, se inventava nomes artísticos diferenciados, certo Xitão? Hilário ver como a cena muda, parece hipocrisia! De novo!!! Odeia emo chorado, mas ama sertanejo chorado. E eu pensava que Umbrella era música pentelha e grudenta com aquela "ELA ELA ELA ê ê ê" que quase funde o tímpano do pobre ouvinte. Pior é ter de ouvir choradeira brega virar pop. O mesmo que batia o pé contra o "brega" e o "cafona" hoje morde a língua, caindo na (des)graça de letras de loser para losers, bem vindo ao clube dos derrotados. Salvo quem foi íntegro suficiente pra gostar de ambos e admitir isso, ou ainda quem nunca cuspiu pra cima. Hoje, a maior fonte de informação musical do momento é a empregada, que passa o dia limpando a casa ligada numa rádio AM pegando os últimos sucessos. Ontem, era música rejeitada. Hoje é o sucesso. Mas... até quando vai durar? Até a próxima novela? Até a mesmisse tomar conta? Mesmisse? Todas músicas são meios parecidas, seja de voz como de melodia e letra, já não basta? Ela já tomou conta!

Sacanagem é você ouvir Iggy Pop, Rolling Stones e Creedence e te meterem pau porque é música velha e ultrapassada. Onde já se viu? Não ta nos tops da eMpTyV, não se deve ouvir. Evidente, pra quem tem cultura de ouvir Umbrella, realmente deve ser ridículo sair ouvindo alto no carro essa música em Janeiro de 2009, "veja, o cara tá ultrapassado, não tá ouvindo a última da Rhianna. Cara, essa música é de 6 meses atrás, não pode mais ouvir!" Imagine ouvir Elvis Presley e Beatles então, seu brega.

O velho brega de Odair José, Ronnie Von, Falcão, Wando e mestre Magal está com os dias contatos. Primeiro, porque se tornaram cult, depois de anos na masmorra. Hoje é cool ouvir som deles.
Segundo, porque o brega está ultrapassando fronteiras.


Mas como dizem, gosto é gosto. O brega virou pop. E se tocou na novela, você é obrigado a gostar. Senão, o brega é você.



Definitivamente, sou um baita, mas baita dum cafona.



*Artigo escrito ao som brega de AC/DC, álbum Highway to Hell*